Quem me dera amar-te... (Fade Out)

Quem me dera amar-te...
Mas para isso quem me dera poder esquecer
Ou, então,
Quem me dera não ter que te beijar,
Não ter que imaginar-te uma mulher que não soubeste ser,
Não ter que fingir-te pura,
Merecedora do meu suor,
Do meu esforço,
Do meu amor,
Da minha vida...

Quem me dera não sentir,
Pois não teria de superar todos os dias a podridão do teu passado...
Quem me dera não ter que te acariciar a face,
Não ter que te possuir,
Não ter que te ouvir,
Não ter que te tocar,
Não ter que te amar!
Quem me dera não ter que fingir amar-te...
...Porém...
Amo-te sem ter que fingir,
Amo-te porque verdadeiro amor não acaba...
Nunca!
Mas também a dor consegue perdurar ao longo duma vida...
Por isso te digo peremptoriamente:

...Quem me dera amar-te...
Mas para isso quem me dera poder esquecer
Ou, então,
Quem me dera não ter que te beijar,
Não ter que imaginar-te uma mulher que não soubeste ser,
Não ter que fingir-te pura,
Merecedora do meu suor,
Do meu esforço,
Do meu amor,
Da minha vida...
Quem me dera não sentir,
Pois não teria de superar todos os dias a podridão do teu passado...
Quem me dera não ter que te acariciar a face,
Não ter que te possuir,
Não ter que te ouvir,
Não ter que te tocar,
Não ter que te amar!

Quem me dera não ter que fingir amar-te...
...Porém...
Amo-te sem ter que fingir,
Amo-te porque verdadeiro amor não acaba...
Nunca!
Mas também a dor consegue perdurar ao longo duma vida...
Por isso te digo peremptoriamente:

Quem me dera amar-te
Mas para isso (...)

Fade Out
(Repetir vezes sem conta até se extinguir por completo...)

Demais Forte


Amar-te, tocar-te, suar-te...
Descobrir-te e conhecer-te na tua essência de mulher,
Saber do que gostas e gostar de te ver a gostar do meu impulso de posse que eu te deixo possuir, E voltar a amar-te, tocar-te e suar-te...
Num compasso infinito para lá do físico,
E penetrar - pelo teu corpo – a tua alma e aí repousar sem fôlego e sem loucura,
Porque é ternura que me escorre do corpo quando toco o teu corpo nu,
Com a palma da mão deambulo pelo teu corpo como se não o conhecesse,
Como se me fizesses virgem vezes sem conta e eu não soubesse tocar-te...
E porém te tocasse como gostas que eu te toque, como gostas que eu te sue, como gostas que eu te ame!

E aumentar o meu ritmo,
E começar a perder a noção do que já era, apenas e só, uma ténue noção da realidade envolvente, E aumentar ainda mais o ritmo,
Pois agora a ternura deu lugar à loucura,
E gritar e gemer e suspirar e respirar de forma ofegante,
Como quem quer terminar sem, no entanto, querer terminar...
E aumentar o ritmo gritando,
Implodindo numa explosão de luxúria, paixão intensa que nos cega, que nos esconde, que nos perpetua...
E ver-te a suares-me, a tocares-me e a amares-me
E parar!
Explodir dentro da tua feminilidade,
E no fim,
Olhar para ti com doçura, sorrindo,
Com uma lágrima nos olhos, às vezes,
Por ser demais forte o amor que sinto por ti!

Cheiro a Amor


Estavas lá… Estavas lá na imunda imundice que não era mais que a tua própria vida. Estavas lá… nua de vida e vestida de sombras do outro mundo… Estavas lá… e agora não tinhas para onde ir… Estavas lá num antro de vícios dos quais não podias fugir.
Estavas lá e oh!... O cheiro!... O cheiro insuportável cheirava a um cheiro que me era, até então, desconhecido, pois nunca tinha cheirado semelhante cheiro.
Cheirava a sexo! Cheirava a minutos de prazer efémero misturados com anos de dor infindável!... Cheirava a um homem que provocaste sem querer provocar… cheirava a suores frios outrora quentes e lascivos que se misturaram sem que houvesse o mínimo contacto de duas almas perdidas. Cheirava-me às dores corporais de uma mulher que não conseguia deixar de ser submissa e que, por isso, cheirava também a dores espirituais ainda mais profundas e incisivas que as primeiras.
Não, não cheirava a amor! O amor não se cheira… o amor sente-se. O amor é partilha. O amor é devoção. O amor é ternura. O amor é perseverança, intimidade, conhecimento, fortaleza, doçura, confiança, honestidade, transparência, beleza, paciência, respeito, protecção e reciprocidade! O amor é lágrimas e o amor é sorrisos. O amor é simples e tão complexo! O amor é a razão da emoção! O amor é isto tudo! Mas, mesmo assim, não está completamente descrito… O amor é muito mais do que a descrição que seres errantes com eu lhe dão! O amor é aquilo que fica por dizer quando nos despedimos para sempre do amor da nossa vida!...
E tu, pobre criatura perfeitamente imperfeita, tu nunca soubeste apreciar o bem mais gratuito que faz de nós os seres mais ricos do mundo. Sempre caminhaste pelo caminho mais difícil. Sempre passaste ao lado do que merecias verdadeiramente. Tu merecias ter cheirado algo puro mas, infelizmente, não o conseguiste…
Pena que quando eu cheguei e te vi morta já não me pudesses cheirar. Pois, nessa vez, haverias de cheirar um cheiro que não costumavas cheirar: o cheiro a que sempre cheirei quando estive contigo e o cheiro a que cheirarás sempre que eu me lembrar do teu cheiro… cheiro a amor!
Sim, eu sei, o amor não se cheira… o amor sente-se! Mas se cheirar é sentir e sentir é cheirar… então tu para mim cheirarás sempre a amor!

Qual Rosa Sem Espinhos


Deixei-te derreter na minha boca
E saboreei-te lentamente
O toque, a sensação tomou conta de nós
Deixei-me levar por ti
Mas tu, de efemeridade inata,
Não resististe ao calor da minha boca e aí desapareceste
A memória de ti até estava presente mas com a tua partida
Deparei-me com a chegada do indesejável…
O amargo aniquilou por completo contigo,
Com tudo aquilo que tu és…
O doce, o bom e a vida.
Mais uma vez o toque, os sentidos…
Porém estes eram os sentidos que eu não queria sentir
E, mesmo contra a minha vontade, não cessaram
E persistiram em persistir na minha boca
Metáfora da rosa, metáfora da vida
O paradoxo sempre presente
O doce e o amargo…
O bom e o mau…
A morte e a vida
Os espinhos… que estão sempre presentes…
Mesmo quando a beleza das pétalas
Nos aprisiona toda a atenção.
Assim é a rosa, assim é a minha vida…
Só tu pareces ser diferente, meu doce!
No teu caso os espinhos não existem,
São apenas mais pétalas a florir…
Para mim, para nós, para o nosso amor…
Qual vida sem morte,
Qual bondade sem maldade,
Qual doce sem amargo,
Qual rosa sem espinhos!

Um Rosto Na Multidão


Agora que caminho por entre estes corpos despojados de alma, nesta cidade despojada de vida, procuro um mundo despojado de morte. Mas não consigo. Tudo é morte desde o primeiro segundo em que se perde a vida e tu… tu eras a minha vida! Quando te ouvia a sorrir, a minha alma sorria também porque o amor é apenas um espelho onde reflectimos no outro aquilo que nos habita interiormente. Lembro-me de me levares a passear no jardim com o teu vestido estival cheio de flores. Lembro-me de te acordar a meio da noite com o meu choro e de tu me acalmares com palmadinhas ternas nas costas. Lembro-me de me contares histórias de amor que lias em romances requisitados na biblioteca. Como gostavas de amor e como amavas essa tua forma amorosa de me amar que dava vida à minha vida e me fazia viver para ti que eras a minha vida.
Mas… como não há vida sem morte, também a nossa vida seria abalada por essa mesma coisa mortífera que não é mais que a própria vida. Era o dia dos meus anos. Exactamente o dia em que fui mais cedo para casa para te fazer uma surpresa. Porém o surpreendido fui eu, quando entreabri a porta cuja maçaneta estava manchada por um espesso líquido vermelho. Percebi logo que, mais uma vez, ele tinha ido visitar-te mas que, desta vez, a sua passagem não tinha sido tão vã como as anteriores. As gotículas de humidade provenientes da tua respiração ofegante tinham embaciado o espelho poeirento. Os lençóis amarelados estavam ainda mais amarelados devido aos suores que neles flutuavam. As tuas roupas estavam espalhadas pelo chão. A poça do espesso líquido vermelho chegava até à entrada da porta e molhava os teus sapatos preferidos – aqueles que tinhas comprado num dia em que tínhamos ido à grande cidade.
O cheiro no quarto era nefasto e a cena hedionda. Estavas lá… mãe.
Estavas lá deitada na imundice, na poça de esterco, sangue e esperma onde não merecias estar. Fechei a porta e corri.
Corri sem parar e, sem parar, corri. Escondi-me limpando as lágrimas de mágoa que me inundavam a cara e a própria vida…
Esta… esta é a história da minha vida. Fez de mim aquilo que sou hoje.
Quem eu sou? Não interessa quem sou ou de onde vim. Não interessa qualquer que seja a coisa sobre mim. Não interessa sequer que eu tenha o interesse suficiente para ser interessante.
Sou mais uma história demoníaca, sou mais uma cara sem nome, sou mais um corpo sem alma… Sou, e limito-me a ser, mais um rosto na multidão!...

A Tua Ausência Em Mim Presente


O relógio dá as horas,
Não pára nunca, ritmo constante
Compasso infinito…
Assim é o meu amor!
Por entre memórias e lembranças
Demoro-me na minha espera.
Conto os dias, as horas, os minutos
Os segundos também…
Tudo porque tu escolheste o meu coração para morar.
Qual senhorio possessivo,
Deixei-te entrar.
Abri-te as portas do meu ser
Para que te encontrasses a ti própria,
E aí passasses o tempo…
a ver o tempo passar
Assim o fizeste mas logo desapareceste
O tempo voou enquanto estavas comigo
Mas agora que a tua ausência está em mim presente,
O mesmo tempo está cansado de voar
E, por isso, rasteja e demora tempos infindáveis a passar
Distância física…
Proximidade espiritual.
Tocas a minha alma constantemente
Mas o meu corpo não te sente…
Interior…Exterior…
O paradoxo paradoxalmente paradoxal.
Sinto-te sem te tocar.
Tenho-te sem te ter.
Tristeza pontual mas alegria infinita…
Pois o azar de ter este azar é a mais pura das sortes…
…Quem sofre por amar é o mais sortudo dos sofredores!

Ametista


O meu olhar caminhou pelas linhas de livros poeirentos,
Outrora preferidos, agora obsoletos.
Solidão irrequieta, desenterrei o passado vão e distante
Deuses, histórias de embalar crianças,
Mitos, mentiras.
Mitos, verdades.
Do senso comum, talvez.
Mas guias da cegueira dos que pensam ver.
Encontrei-te e sorriste-me…
Quis conhecer-te… tornar-te minha…
Mas tu não és de ninguém.
E és de todos.
De todos os que acreditam em ti…
Na paixão de ter esperança…
E na esperança de encontrar a paixão.
Que nos enche o peito de forma tão intensa
Que quase nos corta o fôlego.
Mas, no entanto, nos dá vontade de continuar a viver.
Porque a história é feita de lutas… e amor.
Também a tua história resulta disso…
Baco e ela, Diana, discutindo apaixonadamente…
Discussão, reconciliação, discussão, reconciliação
Assim é o amor.
O ciclo perfeito por ser imperfeito.
O remorso de Baco deu cor à tua vida.
Agora, frente a frente, olho para ti e perco-me nas tuas formas,
Transformas o meu mundo voraz
Fazes-me sonhar e manténs-me vivo.
Vivo de vida e morto de morte.
As estações foram passando, os ventos foram soprando,
E os anos passando…
Tudo decorreu para que nos encontrássemos
E agora, no contemporâneo do próprio contemporâneo,
Seguro-te nas mãos, ametista,
E, sinceramente, não te quero deixar ir…
Mas eu não sou dono de ti…
(Porque tu não és de ninguém)
E por isso segues a tua vida.
As estações passarão e os ventos soprarão
Mas sei que, mais tarde ou mais cedo,
Virás parar à minha mão!...

Evidências


O meu amor por ti é uma evidência
Algo que não se pode contrariar
Algo mais irrefutável do que a ciência
Um verbo a que chamaram amar!

Um Espelho Para Quatro Actos


Prólogo:
A história da minha vida?
Uma epopeia mundana daquilo que é amar alguém...
Nada de original
Nada que qualquer outra pessoa não o tenha vivido também...
Hordas de paixão intensa e amores primaveris e floreados...
E dor!...
Dor como qualquer romance que se preze tem!
Dor daquela que doi mesmo quando não pensamos nela!
Dor física...
Dor espiritual...
Dor que ainda doi ao fim de tanto tempo...
Dor que faz parte da minha história...
que me enche agora......
de vazio
Que tenho para te contar?
Que encontrei o reflexo para a vida que acabou por desaparecer sem deixar rasto?
Que te respirei sempre em todas as estações da minha vida?
(Embora de formas bem diferentes?)
Sim...
Acho que é isso...
É esta a minha história...
A história do encontro do verdadeiro reflexo para lá do reflexo fácil que o espelho nos reflecte
A história de um teatro onde os protagonistas protagonizam a sua própria desgraça...
O teatro da minha vida?
Bem.. divido-o em quatro actos:
Histeria, Expulsão, Sopro e Envelhecimento!


Acto I : Histeria
No espelho envernizado do nosso quarto vejo reflectidos os primeiros raios de luz que entram pelas frestas da janela. Neste dia que se adivinha solarengo, reparo que ainda não acordaste. Ainda estás a dormir com aquela cara de criança feliz que costumas ter quando sonhas comigo. Sim, sei perfeitamente que é comigo que sonhas pois também tu és a única personagem que aparece sempre nos meus sonhos nocturnos e diurnos. Tal como a estação do ano em que estamos, sinto um amor puro e primaveril dentro do meu coração. Qual árvore a florir para sempre, o meu coração parece já não ter espaço para te amar tanto mas, apesar disso, sinto que em cada segundo que passa amo-te mais um bocadinho!Olho para o espelho e observo-me atentamente pela primeira vez na minha vida. Vejo um rosto feliz. Feliz por ter alguém como tu que me dá vida e me faz viver para ti que és a minha vida plena de amor e felicidade.Ainda estou nua. Não sou particularmente bonita mas tu, com toda a pureza do teu amor verdadeiro, tornas-me bonita pois sei que me basta reflectir aquilo que tu és para ser a mais bonita do mundo! Ainda estou abalada pela intensidade da noite que passámos juntos. És um sopro de histeria que me habita internamente e me faz expulsar para sempre o envelhecimento do meu corpo. Porque me fazes jovem. Porque quando fazemos amor viajas com a tua língua pela minha pele como se de um templo se tratasse e quisesses absorver-me num abraço eterno de paixão intensa. Seguras-me nos braços e, por momentos, sinto que nem o meu corpo nem o meu espírito estão neste mundo pois são levados pelo teu corpo e pela tua alma para esse mesmo lugar onde estão os corpos e almas que se conseguiram fundir num só, dando origem a uma criatura que é sexo e amor pois o amor sem sexo é mera amizade perseverante e o sexo sem amor é mero desejo carnal, necessidade emotiva, gula de luxúria gratuita! Não só tocas o meu corpo como o fazes com a minha alma. Sinto a tua alma a penetrar a minha e a transpor-me para esse limiar da existência feliz onde, devido a sentirmos de forma tão arrebatadora, acabamos por perder os sentidos (exaustos de tanto sentir!). Somos um só e um só tem, indubitavelmente, amor por si próprio. Sinto uma alma que grita bem alto das profundezas do meu ser o teu nome! Amo tudo o que tu és de forma obsessiva!... Chega mesmo a ser egoísmo porque se somos um só, amar-te é a mesmíssima coisa que me amar… que nos amar! É amor do mais puro que habita o mundo perfeito que criámos conjuntamente. É amor histérico por querer bradar aos céus a histeria que é amar cada detalhe dessa tua pessoa cheia de detalhes que, por serem tão perfeitos, não podem ser humanos mas, no entanto, fazem de ti a pessoa mais humana de toda a humanidade inumana!Já nem sei se és sanidade ou loucura na minha vida! Só sei que és tu que, sem dar por isso, me fazes sã e louca por ti!... Sei que são antíteses mas isso não me importa! Importar-me seria desperdiçar o tempo que temos juntos. Tu dizes, e eu sinto-o, que nos vamos amar para sempre… e, se sou imensamente feliz contigo no meu presente, sei que só contigo poderei viver um futuro igualmente feliz!...
Meu amor!... Minha vida!... Meu reflexo do meu próprio reflexo!


Acto II : Expulsão
No espelho baço do (agora) meu quarto vejo-te a fechar a porta contra a minha vontade. Oiço-os dizer que na vida há sempre portas a abrir e outras a fechar mas não quero saber de frases feitas. Se és tu a fechar a única porta que eu desejava aberta, então mais vale nem sequer abrir nenhuma porta. Não fechas só a porta deste quarto malogrado. Fechas a porta da nossa vida conjunta. Fechas a porta dos nossos sonhos, do nosso futuro, do nosso mundo. Sim, é verdade. Fui eu que te mandei ir embora do quarto mas foste tu quem me renegou… quem desistiu de mim… quem de mim não quis saber!... Como foste capaz de abdicar de tudo o que construímos? Se a tua alma se estava a perder porque não me pediste para a procurar? Porque não procuraste consolo no regaço do meu espírito?Falavas-me de como o nosso romance era belo ao ponto de não necessitar de ser romanceado para ser o romance mais romântico de todos os romances da Terra. Dizias-me palavras eternas, desejos latentes, quimeras por possuir, madrigais majestosos… Contavas-me trovas dum amor imperfeitamente perfeito – e, por isso, perfeito – mas foste tu quem abriu asas para um voo solitário que nos tornou ambos solitários. Tantas estrofes que me escreveste dizendo que me amavas, tantas vezes que, enquanto fazíamos amor, me confidenciavas sobre a forma de um suspiro voluptuoso que me amavas… Que amor é esse que magoa? Que amor é esse que provoca lágrimas de angústia? Que amor é esse que vive para expulsar a semente do seu sémen no útero da fecundidade, para depois nos abandonar ao insensato sopro da vida que nos envelhece na histeria da cegueira muda?... Amor? Que exuberância! Chama-lhe tudo menos amor! O amor não rouba, o amor oferece, o amor partilha! E, vejo agora, que não paraste de me roubar. Roubaste-me uma felicidade que eu sempre te quis dar gratuitamente. Roubaste-me o futuro, o presente e até o próprio passado! Roubaste-me a alma e roubaste-me o corpo! Roubaste-me até o próprio ar que respiro pois agora quase sufoco sempre que respiro! Roubaste-me a virgindade mas, nem por sombras, me roubaste a pureza, pois serei sempre pura de sentimentos e isso sim, é a verdadeira pureza! Roubaste-me este e o outro mundo! Roubaste-me desde o primeiro minuto em que te conheci! Roubaste-me a vida! Roubaste-me tudo! Roubaste-me!!!... E quem rouba é ladrão! Não quero amar um ladrão…nunca mais! Só te quero odiar! Odiar o amor que tenho por ti! Odiar-te com todo o calor que te amei!... E odeio-te, odeio-te, odeio-te! Odeio-te tal como odeio todos os ódios que o teu ódio gerou em mim! E odeio-te, odeio-te, odeio-te! Odeio-te tal como odeio esta tarde de verão de Agosto que me inunda a testa não de suor mas de ódio do mais odiento possível! E odeio-te, odeio-te, odeio-te! Odeio-te tal como odeio este calor seco que entorpece a atmosfera e me aquece o fervor de morrer de calor e viver de ardor! E odeio-te, odeio-te, odeio-te! Odeio-te de tal forma que nem podes imaginar! E odeio-te, odeio-te, odeio-te! Odeio ter-te ódio mas odeio ainda mais não te conseguir odiar! Odeio-te hoje e odiar-te-ei para sempre!
Sim, odeio-te… meu amor!... Minha vida!... Meu reflexo do meu próprio reflexo!


Acto III : Sopro
No espelho relativamente iluminado pela vela que seguro na mão direita observo agora a minha face translúcida. O turbilhão de sentimentos radicais e exacerbados que habitou em mim por ti, começa finalmente a sossegar. Já não te odeio, já não desejo que sofras tudo aquilo que eu sofri! Sou mulher e, como tal, sou forte! E consegui encontrar dentro de mim uma força que não me deixou enfraquecer mas, todavia, sinto-me tão fraca! Calma e serena mas fraca! Soube destruir o ódio que construí por ti e soube restaurar o amor que tu conduziste à erosão…e… a verdade dentro de mim não me deixa mentir: amo-te! Amo-te por tudo! Amo-te como sempre e para sempre! Amo-te e volto a repetir: Amo-te! Suspiro-o da mesma forma como fazia nas vezes em que esperava que viesses para casa. Mesmo que te atrasasses, tu vinhas sempre para casa… até àquele dia em que tudo mudou. Agora sei que não voltarás mas não é por isso que vou deixar de te amar! Amo tanto tudo o que me deste! Por maior que seja a mágoa que me causaste, por teres fechado a porta para sempre, não poderei nunca esquecer o mundo que me deste! Passei anos a esquecer de me lembrar! Mas a verdade é que não posso apagar os momentos que me deste, a vida que me proporcionaste! Pois a vida não se escreve para depois se apagar com uma borracha… Continuas lá… No meu mundo perfeito! Continuas lá com esses caracóis que Deus pintou de castanho! Continuas lá na mais terna redenção que é dar vida à minha vida moribunda! Continuas belo e imperfeitamente perfeito e tenho a certeza que continuarás sempre até ao fim dos meus dias! A tua beleza persiste em mim mas, ainda dessa forma, não poderei também esquecer-me de lembrar aquele dia em que desapareceste! Aquele dia que foi o último dos meus dias! Não me esquecerei de lembrar também, os oceanos que chorei, os desertos onde deambulei e o vento que superei! É certo que o vento é instável pois ora sopra sopros fortes, ora ameniza as coisas soprando brisas amenas. Mas basta-me debruçar-me sobre o miradouro da minha vida para perceber que o vento, por mais intempestivo ou matreiro que seja, não consegue levar nem uma só memória do memorial da minha vida! Mesmo que, qual vento de Outono, consiga arrastar algumas folhas pelo pavimento da minha sensibilidade, decerto não as irá deglutir na esperança inútil de alterar o passado vergonhoso. As memórias persistem a tudo! Só mesmo o tempo poderá apagar algumas pois só o tempo ousa tamanha ousadia! Mas por mais tempo que passe, sei que estarás dentro de mim pois és o meu passado, o meu presente e, tenho a certeza, o meu futuro! Vejo agora que foste a lição da minha vida! Foste o lírio plantado no jardim oculto da minha alma suplantada de erros errantes! Á medida que vamos envelhecendo, a nossa vida vai-se tornando em algo que não é mais que um mero sopro frágil que já não tem o fulgor e a histeria da juventude pois já não temos energia para expulsar tudo aquilo que nos habita interiormente.A vida é simples mas todos nós achamos que a devemos simplificar tornando-a mais complexa. Agora?… contradições, paradoxos e incongruências embatem no meu coração duplamente apaixonado e magoado! A vela que seguro na mão direita continua acesa mas será que resistirá à bravura do vento forte de Outono? O tempo o dirá…
Meu amor!... Minha vida!... Meu reflexo do meu próprio reflexo!


Acto IV: Envelhecimento
No espelho quebrado do meu quarto escurecido com o passar dos anos, observo a palidez da minha face. As rugas são muitas e os lábios estão roxos. O meu pescoço é agora uma cascata de peles demasiado enrugadas para passarem despercebidas. Os cabelos brancos e fragilizados pelo tempo estão presos à última coisa que me deste – aquele pequeno gancho prateado em forma de libélula.Esse espelho cruel reflecte agora um olhar cansado que finalmente vê com olhos de ver – ainda que húmidos por verterem tantas lágrimas – tudo aquilo que vivi… Todas as estações da minha vida, todas as paragens, todas as dúvidas, todas as certezas duvidosas, todas as caras, todas as sombras, todas as palavras marcantes, todos os minutos sorvidos rapidamente e todas as décadas longas e penosas.Tento esboçar um sorriso puro e feliz. Daqueles que fazemos quando somos crianças apaixonadas pelo nosso pequeno mundo que não é mais que uma caixa de brinquedos num quarto deserto de impureza e malícia. Mas não consigo! Longe vão os tempos em que a felicidade presenciava todos os momentos da minha vida! Longe vão os tempos em que sorria, sem por isso dar conta, pois tinha esse pequeno bem simples, essa musa de poetas baratos mas dignos, essas quatro letras que formam a erudita Roma… Sim, era amor! Do mais puro! Daqueles que dão vida à própria vida… Tu eras o meu amor, tu eras a minha vida mas… antítese infeliz, foste tu que me tiraste a vida que tu próprio me deste. Foste tu que viraste as costas e fechaste, pela última vez, a porta deste mesmo quarto onde me encontro neste preciso momento a olhar para este espelho quebrado. Foste tu que, logo após a histeria do nosso amor jovem, me expulsaste para sempre da tua vida deixando-me envelhecer com nada mais que um mero sopro da tua existência.Agora estou só e nada me incomoda. Com uma calma dolorosa vejo ainda o teu sorriso feliz na manhã seguinte a termos feito amor pela primeira vez. Consigo ver ainda a lágrima triste que derramaste no dia em que o rebento do nosso amor nasceu… e morreu. Consigo visualizar a tua cara tal como se te tivesse visto ontem mas, passaram segundos… horas… dias… semanas… meses… estações… anos… décadas… Tanto, tanto tempo! Mas agora o tempo já não importa. Agora tenho todo o tempo que o meu tempo tem e esse, é todo o tempo do mundo, não do nosso – pois esse terminou cedo – mas do meu mundo.Como está frio nesta altura da minha vida! As minhas mãos roxas estão geladas e doem-me os ossos das pernas. É difícil manter-me de pé… mas isso já não me importa nada. Já não tenho caminhadas ou buscas incessantes para fazer. A neve que cai lá fora funde-se com a brancura dos meus cabelos presos e faz-me pensar que estou a chegar à última estação da minha vida… Sinto que, de alguma forma, o meu sofrimento irá acabar… Sinto que o meu corpo velho irá sucumbir finalmente à adaga que cravaste no meu coração ainda jovem… Muito, muito docemente sinto que vou adormecer eternamente. Em breve, irei ter contigo…em breve abraçar-nos-emos para sempre…
Em breve nada nos poderá separar outra vez… meu amor!... Minha vida!... Meu reflexo do meu próprio reflexo!

A Menina de Pólvora

Nota: Este texto não é apenas um poema mas também um filme que se encontra disponível em http://www.youtube.com/watch?v=0j1bZhzL05Y
É dedicado a todas as vítimas de guerra que o mundo conheceu particularmente as crianças.






Na imensidão do céu imensamente cinzento
Desbravas memórias que te consumaram o espírito de dor
Aí vais tu com o teu andar de menina
Saltitando por entre os ramos quebradiços
Olhas para o céu que te pisca o olho
E continuas a tua jornada de quase pureza
Tal como se o teu mundo fosse um jasmim primaveril
Que embeleza as mãos perversas que o arrancam do útero da natureza
Como eu gostaria de ser como tu…

Ter a grandeza do teu espírito de menina de pólvora
E assim padecer…
Padecer na mais predilecta raiz da terra que nos dá o ser e, ao mesmo tempo, nos recolhe o corpo inanimado…
Tu, que viste, ouviste e sentiste
Aquilo que eu,
pobre ser fútil com sonhos fúteis de uma felicidade fútil,
não vi, não ouvi e não senti
O sangue nas tuas mãos e as tuas mãos com sangue…
daquele vivo, daquele muito vermelho…
daquele que é vermelho vivo apesar de jorrar dum cadáver…
Um cadáver que era a tua mãe
A tua mãe! A tua mãezinha que te contava histórias de principados distantes onde os meninos, como tu e os teus irmãos, não precisavam de se esconder debaixo da cama sempre que ouviam passos próximos
a ecoar nas vossas mentes repletas de fantasmas de guerra.
A mãezinha falava-te de monstros urbanos com eu, e os meus semelhantes, que por não terem verdadeira dor nos seus corações semeiam cólera nas suas próprias almas com insatisfações mundanas...
e epopeias escritas por alguém descrente das suas crenças.

E agora tocas-me…
Tocas-me assim e enches-me de lágrimas…
tocas-me com os teus gritos suplicantes,
com as tuas lágrimas de menina que não entende o porquê
dum soldado a disparar a morte na cabeça do teus pais.
Choras lágrimas de uma humanidade perdida para sempre no genocídio dos seus próprios rebentos…
Choras o verdadeiro fim que já aconteceu antes de tu e eu nascermos
Choras os fins que acontecem todos os dias desde sempre e para sempre…
Ontem, hoje e amanhã

Estavas lá nessa casa em ruínas rodeada de centeio ensanguentado e lágrimas de dor da tua mãe esfomeada que chorava o teu pai refastelado no chão da morte onde todo o tempo é mera luta entre o corpo e os abutres do deserto sedentos da luxúria de escarafunchar por entre as feridas das passivas balas que viajam com o destino marcado e te fazem pensar e recordar e reviver e odiar esse dia mortífero e inesquecível onde…


E agora que te vejo, menina de pólvora sei que com a minha passividade…
a passividade que o mundo em que vivo me administrou,
me amarás sem eu merecer o teu amor pois serei refúgio para ti…
serei paz que não te denuncia mas que também não te protege…
serei a sombra que te camufla do mundo das trevas…
serei o sol que te aquece os pés descalços quando te apetecer correr sobre ramos quebradiços …
serei os dias e as noites e até as estrelas a quem rezarás sempre antes de adormecer e embarcares no teu mundo de sonhos…

E como sonhavas!…
sonhavas com uma vida que eu e os meus semelhantes tantas vezes odiamos…
sonhavas possuir aquilo que tantas vezes eu reneguei
E sonhavas que tinhas mãe e que tinhas pai e que tinhas alma
Sonhavas com esse principado distante onde os meninos, como tu e os teus irmãos, não precisavam de se esconder debaixo da cama sempre que ouvissem passos próximos
a ecoar nas vossas mentes repletas de fantasmas de guerra.
Sonhavas que te encontravas numa terra em que não havia rugidos de metralhadoras e granadas e tanques e explosões…
Tu sorrias e dizias não acreditar nisso pois isso não tinha cabimento no teu mundo de sonhos
e metralhadoras
e amor
e granadas
e fome
e tanques
e rostos gritantes gritando, chorando, implorando pelo tiro final para poderem descansar em paz – ainda que mortos.
Sonhavas com a mãezinha que te ajeitava os cobertores quando fingias estar a dormir.

Mas eram sonhos!

...e os sonhos têm a terrível malícia de nos deixarem tristes quando acordamos…

Querer



Quero estar contigo.
Quero adormecer embalado pelos teus beijos.
Quero acordar-te com carícias ternas
Quero conhecer todos os recantos de beleza que habitam a tua essência.
Quero ver-te sorrir e sorrir para ti.
Quero enxugar cada lágrima que choras.
Quero tocar-te sem pressas e com pureza
Quero esperar por ti e quero que esperes por mim.
Quero perder desde que tu ganhes
Quero ganhar desde que tu não percas
Quero que me queiras e quero querer-te sempre como quero neste preciso momento

A Toalha Ensaguentada

Estás sentada a um canto a chorar,
a torneira continua aberta,
a banheira está a transbordar e começa a derramar lágrimas involuntárias também
Ainda tens no pescoço alguns arranhões,
Cheiras a sexo.
Forçado. Sujo. Impuro. Feio.
De joelhos acaricias a minha face já fria,
Já não te consigo sentir,
Perdi a vida quando começava a saber o que isso era,
Pois eras tu!
Agora,
Ambos somos vítimas,
De um impetuoso assassino de almas,
E tu,
Não só choras a minha morte como também
Desejas a morte dele mas ele não morrerá tão cedo…
E voltará…
Com a sua sede depravada, febril de carne…
A tua carne.
Sentes-te suja. Usada. Violada.
A toalha ensanguentada é agora o lenço das tuas lágrimas.

Persistência


As ondas da manhã
E eu, no meu posto a vê-las.
Timidamente tentam alcançar-me
Mas eu sou mais tímido ainda
E recolho-me prontamente.

A praia, essa está deserta.
Ninguém quer ir à minha praia numa manhã de Janeiro
As ondas, mais persistentes do que a persistência,
Persistem em tentar alcançar-me
Mas agora estou mais longe
Qual cobarde, procurei um sítio ainda mais
Distante da rebentação do Atlântico.

Agora estarei seguro nesta areia branca, luzidia,
Virgem, intocável perante as persistentes ondas
Perco-me nos meus pensamentos imaturos
Sonho com sonhos que não vou realizar e, no entanto,
me farão sonhar tantas mais vezes.

Lembro-me de ti, lembro-me deles – pilares da minha existência vã
Completamente absorto em tudo isto sinto o meu corpo paralisar
ao primeiro toque da água gelada de Janeiro
As ondas apanharam-me no meu recanto secreto, no meu abrigo seguro
No meu posto de vigia
A distância parecia grande, segura, mas as ondas persistentes
Apanharam-me desprevenido…
Não desistiram… nunca!...
Água mole em pedra dura…